(fácil concluir que dois e dois são quatro à sombra duma figueira, queria era ver alguém puxar linhas e outros segmentos, fechar rigorosamente um círculo, demonstrar enfim um teorema em plena fogueira do inferno)

(Raduan Nassar - Um copo de cólera)

Histórias são recebidas, hoje, sempre com um meio ouvido. Todos meio ouvintes que, mal se iniciam na narrativa, já pensam em outra coisa. Claro, vontade, sim, eles têm, de umas pequenas férias da vida lá deles. Umas pequenas férias de si mesmo, quem não quer? Mas entram (entramos) sem acreditar muito em nada. Tentam (tentamos) uma meia entrada com nossa atenção a meio pau em uma seminarrativa sobre o quê, mesmo? Ah, sim, vidas alheias que talvez sejam as nossas. Fazem isso (fazemos) para tentar recuperar, à distância e sem grandes esforços, a vida. A nossa. Mas sem acreditar muito que vá de fato funcionar. Eu sei. É igual para mim. Mesmo em se tratando de vidas - estas, as contadas - com certificado de simplicidade, pois se são contadas. Apresentadas frase após frase, elas ficam, as vidas, se não lineares, pelo menos sequenciais. Necessariamente mais simples que as que de fato temos.

(Elvira Vigna - O que deu para fazer em matéria de história de amor)

Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

(José Saramago - Provavelmente alegria; “Na ilha por vezes habitada…”)

e você… é generosa
ao provocar o tamanho sombrio
das asas que em minhas costas
não servem

(Paulo Scott - A timidez do monstro; “A gravidez do limo”)

Vou te confessar uma coisa.
Eu acho que eu nunca consegui, realmente, gostar de ninguém.
Isso deve ser triste.
Acho que não. Acho que triste não é a palavra certa.
O senhor quer outro café?
Quero.

(Lourenço Mutarelli - O cheiro do ralo)

CRISTO - Eu sempre falei por parábolas!
O TIGRE - Por quê?
CRISTO - Para não ir preso.

(Oswald de Andrade - O homem e o cavalo)