Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro.

nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,

dividido, vou esquecê-lo,
é o que te digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,

a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e os nossos dias, setembro, lembro

bem, dentro a tua voz dizendo não
(ouço ainda agora), como se quebrasse
um copo, mil copos, contra o muro.

Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim diga não
(e diz), mas é preciso.

Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.

— Eucanaã Ferraz - Setembro
Sinto medo de viver em qualquer lugar senão na expectativa. Não represento um risco de vida. — Leonard Cohen - A brincadeira favorita
No interior se podem ver, como se compusessem uma ópera em infinitos atos, as oportunidades perdidas, as vidas jogadas telhados abaixo, as grandes promessas que não se cumpriram, os grandes futuros que nunca vingaram. — Michel Laub - Música anterior
Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. — Clarice Lispector - Perdoando Deus
Vida só é tolerável quando desligamos amiúde o pensar vivendo ao sabor do vento. Abstrair para não sucumbir. Vida vai aos poucos afunilando para a solidão in totum. — Evandro Affonso Ferreira - Minha mãe se matou sem dizer adeus